Largo Luis de Camões, Lisboa
Abril 2009Hoje gostaria de partilhar convosco uma frase de valiosa sapiência popular e que, se a memória não me falha, li algures numa casa de banho pública que é sempre um local dado a manifestações literárias de cariz duvidoso mas que resultam num óptimo entretenimento enquanto fazemos o que tivermos a fazer (excepto actividades que não se apropriem à leitura); e a frase ditava o seguinte: a vida é uma foda difícil de foder, mas – foda-se! – fode-se!!
E porque me lembrei eu disto, perguntam vocês (não perguntam nada, mas eu gosto sempre de pensar que sim)? Porque em determinadas alturas, por uma qualquer razão, vemo-nos obrigados a entrar dentro de nós e a visitar aquele sótão, que fingíamos nem existir, onde nos cantos escuros e poeirentos descobrimos atónitos aquelas coisas velhas que julgámos ter deitado ao lixo faz tempo, mas que, para nosso infortúnio e por nossa burrice, continuam vivas e de boa saúde (as cabras!) - conquanto não se recomendem de todo, muito menos como aperitivo ao jantar que é bem capaz de nos parar a digestão.
É assim como irmos visitar a nossa própria casa assombrada repleta de fantasmas e assombrações, sendo que a minha casa assombrada é um casarão imperial de 2 pisos e múltiplas divisões, tendo como redondezas a floresta negra, com direito a suite presidencial - que eu sou gaja para lá passar largas temporadas - e catacumbas - onde têm lugar espectáculos de auto-flagelação do mais alto gabarito.
Ora se os fantasmas até se aguentam bem de tão familiares que se tornaram a pairar ali atrás de nós, ou ao nosso lado, consoante as preferências, já as assombrações são capazes de nos pôr a cagar de fininho qual é o cagaço de morte que nos pregam (reparem como isto começa a ganhar contornos escatológicos ou, por outras palavras, como a palavra merda assenta tão bem). Uma assombração, ao contrário dos fantasmas dos quais pressentimos a aproximação, surge sem qualquer notificação prévia fazendo-nos saltar ridiculamente com a mão em garra agarrada desesperadamente ao coração que ameaça colapsar para depois nos derrubar escada abaixo e batermos alegremente com a nuca em todos os degraus por onde passamos. Uma vez recompostos mandamos a assombração à fava e ela, obediente - pensamos nós na nossa santíssima ignorância, ou ingenuidade, vá, que eu estou é a falar de mim - lá vai. Vai, mas volta! Que a gaja, inteligente como permitimos que o seja, sabe perfeitamente que enquanto lhe dermos importância vai conseguir foder-nos os cornos e que enquanto a negarmos vai continuar a pregar-nos sustos de morte. Ou pelo menos caganeiras incontroláveis.
Então como nos livramos de uma assombração (reparem como eu continuo a falar para mim, porém no plural que é para todas elas ouvirem)? Muito simples! – digo eu, não obstante a minha inépcia para o assunto! Basta aceitar a sua visita inesperada, como um reencontro falaciosamente festivo com um velho familiar ou conhecido com quem aprendemos as maravilhas da hipocrisia, e darmos-lhe umas palmadinhas nas costas enquanto debitamos uns quantos cumprimentos de circunstância e debatemos o estado do tempo, para de seguida prosseguirmos descontraídos o nosso caminho. É meio caminho andado para que ela se reduza à sua insignificância e comece a encolher-se num difuso espectro que ocasionalmente flutua ali ao nosso lado, ou atrás de nós, consoante as preferências, para que um dia, com sorte, desapareça.
E, perguntai vós, porque razão decidi eu torturar-vos com a minha abjecta verborreia? Responde-se rapidamente: exorcismo!! Ainda tentei rodar o pescoço porém apenas consegui com isso um novíssimo colar ortopédico que eu penso forrar com pelúcia rosa fluorescente. Pode ser que me ilumine. Ou alucine. Cá para mim vai dar ao mesmo.
N.R.: Eu sei que a comparação entre fantasmas e assombrações é no mínimo estapafúrdia e despropositada, contudo foi o que me surgiu na altura e que, por incrível que possa parecer, teve lógica para mim. Isto, obviamente, à luz da minha lógica que de lógica não tem nada!
Esta foto, que é uma dupla exposição de uma amiga e de nuvens, pertence ao segundo rolo tirado com a Banner que teve direito a light leaks e mais umas quantas asneiras - leia-se fotos queimadas - derivadas da trenguice da operadora.