16 abril 2009

Espectral

Largo Luis de Camões, Lisboa
Abril 2009




Hoje gostaria de partilhar convosco uma frase de valiosa sapiência popular e que, se a memória não me falha, li algures numa casa de banho pública que é sempre um local dado a manifestações literárias de cariz duvidoso mas que resultam num óptimo entretenimento enquanto fazemos o que tivermos a fazer (excepto actividades que não se apropriem à leitura); e a frase ditava o seguinte: a vida é uma foda difícil de foder, mas – foda-se! – fode-se!!
E porque me lembrei eu disto, perguntam vocês (não perguntam nada, mas eu gosto sempre de pensar que sim)? Porque em determinadas alturas, por uma qualquer razão, vemo-nos obrigados a entrar dentro de nós e a visitar aquele sótão, que fingíamos nem existir, onde nos cantos escuros e poeirentos descobrimos atónitos aquelas coisas velhas que julgámos ter deitado ao lixo faz tempo, mas que, para nosso infortúnio e por nossa burrice, continuam vivas e de boa saúde (as cabras!) - conquanto não se recomendem de todo, muito menos como aperitivo ao jantar que é bem capaz de nos parar a digestão.
É assim como irmos visitar a nossa própria casa assombrada repleta de fantasmas e assombrações, sendo que a minha casa assombrada é um casarão imperial de 2 pisos e múltiplas divisões, tendo como redondezas a floresta negra, com direito a suite presidencial - que eu sou gaja para lá passar largas temporadas - e catacumbas - onde têm lugar espectáculos de auto-flagelação do mais alto gabarito.
Ora se os fantasmas até se aguentam bem de tão familiares que se tornaram a pairar ali atrás de nós, ou ao nosso lado, consoante as preferências, já as assombrações são capazes de nos pôr a cagar de fininho qual é o cagaço de morte que nos pregam (reparem como isto começa a ganhar contornos escatológicos ou, por outras palavras, como a palavra merda assenta tão bem). Uma assombração, ao contrário dos fantasmas dos quais pressentimos a aproximação, surge sem qualquer notificação prévia fazendo-nos saltar ridiculamente com a mão em garra agarrada desesperadamente ao coração que ameaça colapsar para depois nos derrubar escada abaixo e batermos alegremente com a nuca em todos os degraus por onde passamos. Uma vez recompostos mandamos a assombração à fava e ela, obediente - pensamos nós na nossa santíssima ignorância, ou ingenuidade, vá, que eu estou é a falar de mim - lá vai. Vai, mas volta! Que a gaja, inteligente como permitimos que o seja, sabe perfeitamente que enquanto lhe dermos importância vai conseguir foder-nos os cornos e que enquanto a negarmos vai continuar a pregar-nos sustos de morte. Ou pelo menos caganeiras incontroláveis.
Então como nos livramos de uma assombração (reparem como eu continuo a falar para mim, porém no plural que é para todas elas ouvirem)? Muito simples! – digo eu, não obstante a minha inépcia para o assunto! Basta aceitar a sua visita inesperada, como um reencontro falaciosamente festivo com um velho familiar ou conhecido com quem aprendemos as maravilhas da hipocrisia, e darmos-lhe umas palmadinhas nas costas enquanto debitamos uns quantos cumprimentos de circunstância e debatemos o estado do tempo, para de seguida prosseguirmos descontraídos o nosso caminho. É meio caminho andado para que ela se reduza à sua insignificância e comece a encolher-se num difuso espectro que ocasionalmente flutua ali ao nosso lado, ou atrás de nós, consoante as preferências, para que um dia, com sorte, desapareça.

E, perguntai vós, porque razão decidi eu torturar-vos com a minha abjecta verborreia? Responde-se rapidamente: exorcismo!! Ainda tentei rodar o pescoço porém apenas consegui com isso um novíssimo colar ortopédico que eu penso forrar com pelúcia rosa fluorescente. Pode ser que me ilumine. Ou alucine. Cá para mim vai dar ao mesmo.



N.R.: Eu sei que a comparação entre fantasmas e assombrações é no mínimo estapafúrdia e despropositada, contudo foi o que me surgiu na altura e que, por incrível que possa parecer, teve lógica para mim. Isto, obviamente, à luz da minha lógica que de lógica não tem nada!




Esta foto, que é uma dupla exposição de uma amiga e de nuvens, pertence ao segundo rolo tirado com a Banner que teve direito a light leaks e mais umas quantas asneiras - leia-se fotos queimadas - derivadas da trenguice da operadora.

14 comentários:

Desinformador disse...

Tens duas soluções: ou chamas os caça fantasmas; ou vais ao médico mendigar prozac; ou entao, na próxima tenta descer as escadas, não à cabeçada, mas sim como a miúda do exorcista, que parecia uma aranha...

Talvez uma visita às 2 da madrugada à serra de Sintra em noite de lua cheia te ajude a exorcizar fantasmas e assombrações! Há sempre gente por lá disposta a ajudar...

K disse...

Ahahahahahahahahhaha! Óptimas sugestões que tu fizeste, para variar um pouco ao que é usual em ti, contudo acho que sou eu que devo resolver o assunto mesmo - embora a sugestão de descer a escada qual aranhiço me agrade sobremaneira. Mas....o que é que se passa mesmo na serra de Sintra?? Será que a de Valongo também serve para o propósito?

Desinformador disse...

A Serra de Sintra é a capital do misticismo, bruxaria e afins em Portugal... para o norte, sei que a zona propícia para estas actividades lúdicas fica por Viana do Castelo... mas é uma questão de investigar algo mais!

K disse...

E achas que eu tenho paciência para bruxarias?!!?

Me disse...

Olha, olha, olha... para além de me teres feito rir com as tuas "tripes" fantasmagóricas, gosto particularmente de depois de tudo isso ainda dizeres que não tens paciência para brucharias e afins... oh valha-me caredo.
Tu vai mas é à bruxa mesmo! Talvez ela e os amiguinhos fantasmas possam fazer vaquinha para sub-alugar a mansão e aí ficas livre disso!

K disse...

Mas as cenas fantasmagóricas foi só uma porra de uma analogia! Que queres? Esta cabeça não dá para mais!!!

Eu tenho é que implodir a mansão!!!

Vitor disse...

Pronto... agora que já sabes juntar palavras, tenta junta-las de modo a que façam algum sentido!

Toze disse...

vinha aqui em tom sério comentar a tua "objecta verborreia" com analogias bem conseguidas no meio fantasmagórico dos pensamentos.

Mas ao ler o comentário do Vitor, perdi-me por completo o que vinha cá dizer !!!

:))))))))))))

K disse...

Vitor, meu amor, mas quem te disse que era para fazer sentido? Não percebes nada rapaz!

Toze, mas tu 'tás de conluio com ele??

zamotanaiv disse...

Acordaste com a inspiração toda!!
Quando é que sai esse livro?
Esse texto está mesmo pró!
Vê lá se essa máquina te está a transformar em poeta!

zamotanaiv disse...

...tiza!

K disse...

Zamot my dear, livro não sai que eu gosto de poupar a natureza. A máquina não me está a transformar em nada. Talvez tenha ganho uma outra sensibilidade, talvez. Contudo, o gosto pelas palavras e pela escrita já vem de há muito. Eu é que tenho andado parada e tu é que não me conheceste quando eu ainda escrevia! Isto é um exemplo que penso que fica aquém do que já fiz. Enfim....pode ser que volte...pode ser que não (dado a minha preguiça natural). Mas que me deu um gozo do caralho voltar a escrever, lá isso deu!!! Olé!!! (mas foi um parto moroso e doloroso!!)

(gostei que tivesses gostado! ;])

Anónimo disse...

Os medos são para ser compreendidos.
Mas não nos podemos permitir deixar levar por eles.
O medo paralisa e impede-nos de viver a vida, com os seus altos e baixos.
Tal e qual como ela deve ser vivida.
Os quartos que fechaste com os monstros lá dentro não têm necessariamente de serem revisitados.
Os quartos existem, mas não os temos de usar.

A qualquer momento pudemos deixar a casa e ir mudar para uma nova.
Depende do que queremos repetir e do que não queremos mais.

Depende do que tu queres.
Todos temos divisões proibidas.
Não as uses, não as mostres.

A mansão não manda em ti.

Beijinhos.

K disse...

Obrigada. Queria poder-te dizer-te mais mas só consigo mesmo obrigada. Obrigada por entenderes e trazeres ao de cima o que disfarcei em piada, por mo dizeres tão directamente, por mostrares outra perspectiva e por me relembrares que apenas nós temos o poder da mudança, e que para isso basta realmente querermos. Gostei muito das tuas palavras. Quase diria que me conheces...ou não?